Páginas

O primeiro adeus

Desde sempre, nós somos obrigados a conviver com perdas. Aquela boneca, que sua mãe deu a vizinha, ou aquela caneca colorida, que caiu no chão da classe e você nunca mais encontrou. A perda da inocência, ou de uma pessoa que você ama muito. 

Existem também as perdas emocionais, às vezes sofremos tantos que deixamos de sentir. E deixar de sentir, é a pior perda de todas. Porque dói, mas sentir é o que te torna vivo. É difícil de aceitar a perda de algo, mas a vida impõe isso. O que me faz pensar que eu não sei viver. Eu não gosto, e não aceito perdas.   
Eu sofro por perdas bobas, e choro. Dizem que com o tempo, eu vou perder isso também. Mas poxa, até isso a vida vai tirar de mim? Eu não aceito. Eu esperneio. Bato o pé. O que é meu, deveria ser meu para sempre, e se viver é isso, eu não quero mais. 

Eu passei esse tempo todo borrando o meu rímel. Carregando o peso do que não vai voltar, e desejando tudo o que me tomaram de volta. As estrelas são testemunhas das surras que eu levei, mas elas não podem me presentear  com algo eterno. 

Coração de fogo

E depois de todo esse tempo, eu acho que finalmente me convenci de que preciso encontrar alguém. Não um alguém qualquer, aquele alguém que faça o meu coração bater mais forte, me tire o sono e me faça sorrir sem motivos. 

Eu preciso de um companheiro, um amigo, um amor de verdade, que faça valer a pena. 

Um amor que abra os olhos para conseguir enxergar - e aceitar - as minhas cicatrizes. Que não tenha medo do meu drama e me ajude a ser feliz. Alguém para assistir filmes de romance adolescente comigo, ou até mesmo desenhos animados. Que possua a alma livre, como a minha. Que sonhe, e acima de tudo, ame. 
Alguém que me ensine a gostar de diferentes tipos de música, e que seja paciente, por favor. 

E eu quero suspirar e sorrir por esse amor. Pular a janela do meu quarto para passar as noites de inverno deitada em seu colo. Ouvi-lo sussurrar coisas bobas ao pé do meu  ouvindo, e observa-lo durante o sono, embalada  ao som de sua respiração.

Eu quero todo o clichê do amor. O coração em chamas, e todos esses sentimentos absurdos que os poetas descrevem. 

Mãos de criança, dores de gente grande

Sentia-se sozinha de uma forma que nenhuma pessoa merecia sentir-se. Dizia que o seu lugar favorito no mundo era o seu quarto; era simples, paredes brancas e ali encontravam-se as únicas coisas que ela realmente tinha, que resumiam-se em algumas roupas e livros. Os livros tornaram-se uma válvula de escape, e era difícil manter-se fora de uma estória, mesmo quando não estava lendo.

A realidade é dura, e ela nunca quis enfrenta-la. Mas que escolha tinha? Uma hora ia acontecer, mas nunca estaria pronta para isso.

A cada dia que passava, seus pequenos dedos tornavam-se mais enrugados, e seus olhos viam coisas que não desejava ver. A maldade das pessoas. A maldade do mundo. Não é reconfortante viver em uma realidade tão cruel: Sem amigos, sem alguém que a entendesse e pudesse abraça-la enquanto as lágrimas afogam seus sonhos.

Por muitas vezes, olhava ao redor à procura de algo que a fizesse acreditar que o mundo era um lugar bom, e que desejava viver aquelas pequenas coisas banais que todos os outros da sua idade viviam, como por exemplo namorar, beber, sair a noite e coisas do tipo. Mas era impossível. A solidão sempre foi um buraco, sugando todas as vontades que ela um dia ousou  sentir. Até que conformou-se, e decidiu criar o seu próprio mundo. Onde existe sorrisos de bebês em todos os rostos maus e a tristeza não existe. Mas no fundo, ela nunca acreditou em tudo aquilo, ela só precisava pensar em algo menos mórbido do que a morte.

Frequentemente sentia-se mal, mas nunca compreendeu o motivo. O seu coração era grande. Talvez fosse esse o motivo: Um coração grande atrai grandes dores.